Blog Curiosidades Indústria

As melhores produções do primeiro semestre de 2019

©Ufotable/Kiyoharu Gotouge

Uma das coisas que mais me fascinam em relação aos animes é, sem dúvida alguma, o que toca à produção visual. Decerto é uma mídia com uma estética bem única, e, quando executada nas mãos certas, torna-se algo ainda mais lindo de se ver. Por isso, acompanhar talentos antigos e novos em primeira mão nos animes de temporada é algo que sempre busco fazer e, honestamente, creio que todos que gostam de animes deveriam também tentar fazê-lo na medida do possível — afinal, saber mais sobre as pessoas que estão produzindo arte torna a apreciação ainda mais rica.

Tendo isso em vista, decidi fazer esse post listando as obras que, na minha visão, mais se destacaram nesse quesito no primeiro semestre do ano de 2019. Devo dizer, de antemão, que não apenas fluidez foi considerada (apesar de ser sim um fator importante), mas também coisas como direção e composição das cenas.

Também quero deixar claro que o objetivo disso aqui não é ser algo super completo e lotado de informações, mas sim um olhar sucinto que possa incentivar mais pessoas a buscarem mais sobre o tema. Além disso, não é um ranking, até porque são obras com abordagens visuais bem diferentes e creio que cada uma pode ser apreciada em sua respectiva proposta, embora, como vocês vão perceber logo em seguida, vou acabar dando um certo favoritismo a um anime em específico. Sem mais delongas, vamos ao texto.

Mob Psycho 100 II

Optei por começar com o pé direito ao falar do anime para TV mais impressionante visualmente dos últimos tempos. Dirigido por Yuzuru Tachikawa e produzido pelo estúdio Bones, podemos considerar Mob Psycho, até mesmo, um tributo à própria animação.

Não seria para menos, já que foi um evento único no qual pode-se presenciar uma imensa gama de animadores talentosíssimos juntos em um só show. O resultado foi uma miríade de cenas espetaculares em todos os episódios.

Das cenas de ação às cotidianas, tudo recebia um brilho a mais devido aos exímios profissionais que estavam lá trabalhando. Dos excêntricos cortes em “paint on glass” de Miyo Sato até as bem coreografadas cenas do Itsuki Tsuchigami e o show-off de 2DFX liderado por Hakuyu Go no episódio 5; nada ficava sem identidade.

©Bones/ONE

Isso não foi por acaso, já que, além dos contatos do próprio diretor, que sempre atrai ótimos profissionais para perto dele, o anime também conta com um character designer de luxo, o Yoshimichi Kameda. Ele é um dos animadores mais respeitados da indústria, encantando-nos com seu estilo único e rústico desde Fullmetal Alchemist Brotherhood.

Inclusive, nessa segunda temporada, ele trabalhou como CAD (Chief Animation Director), permitindo correções pontuais que deixavam qualquer cena com a sua cara, mesmo as que não foram animadas diretamente por ele.

Aliando isso ao incrível e organizado cronograma de produção, o resultado foi uma animação digna de filme. Não bastasse isso, a direção e os storyboards também esbanjavam criatividade, buscando sempre enriquecer a (já boa) história com layouts interessantes que se adequavam ao clima de cada cena e de cada personagem.

Tendo isso em vista, nada mais justo que enaltecer esses esforços aqui. Para quem acompanha esse âmbito da indústria mais ativamente, essa temporada de Mob foi um excepcional oásis.

Kimetsu no Yaiba

Agora, vamos ao anime que vem impressionando bastante o público nos últimos tempos — o nosso querido Demon Slayer. Produzido pelo renomado estúdio Ufotable e dirigido por Haruo Satozaki, está sendo a febre do ano.

E devo dizer que é merecido, pois poucos “battle shounens” tradicionais tiveram a chance de ter uma produção tão glamourosa como esta.

O maior destaque visual é, sem problemas, o time de fotografia do estúdio, liderado por Yuichi Terao. Ele é responsável pela identidade foto realista deslumbrante que a Ufotable vem adotando ao longo dos anos.

Além disso, ele sabe mesclar com destreza o 2D com a computação gráfica, resultando em algo realmente bonito esteticamente. Ademais, Kimetsu foi abençoado com um ótimo cronograma de produção, permitindo que a composição eleve ao máximo as cenas.

Juntando isso a um ótimo time de animadores (com destaque ao especialista em 2DFX: Nozomu Abe), tivemos um anime bastante sólido.

©Ufotable/Kiyoharu Gotouge

Entretanto, devo dizer que poderia ser melhor em certos pontos, principalmente, no que toca aos storyboards. Eles são bem básicos na maior parte do tempo, devido ao pragmatismo em excesso do diretor do anime.

No entanto, como ele trouxe o ótimo character designer Akira Matsushima para a produção, vou dar um desconto. Afinal, a arte do mangá é bastante única, e creio que poucos outros profissionais saberiam passá-la tão bem para a animação.

Sarazanmai

Esse anime chamou a atenção de muita gente logo na premissa, que é genuinamente bizarra para nós ocidentais. Afinal, não é todo dia que se vê uma obra sobre criaturas que tiram objetos místicos do ânus das pessoas. É uma ideia, no mínimo, curiosa, e devo dizer que foi muito bem aproveitada por um dos diretores mais lendários da indústria — o Kunihiko Ikuhara, responsável pelo clássico Shoujo Kakumei Utena, de 1997.

Sua experiência e qualidade transbordaram nesse anime, que foi uma amostra clara de sua excepcional criatividade. Seus layouts eram intimamente ligados ao storytelling; prestar atenção nas ideias visuais torna-se necessário para o entendimento do plot.

Lembrando que o anime foi co-dirigido por seu amigo, Nobuyuki Takeuchi, uma das crias do estúdio Shaft. Assim, as já ótimas cenas do Ikuhara ganharam uma nuance a mais de quem já chegou a trabalhar com o Akiyuki Shinbo.

©Mappa/Lapin Track/Ikuhara Kunihiko

Apesar da questão de direção ser o principal motivo para o anime aparecer nessa lista, não quer dizer que houve carência de boa animação, muito pelo contrário.

A equipe mantida pelo estúdio Lapin Track é realmente muito boa e fez a diferença quando exigida. Alguém pode estar se questionando onde fica o Mappa nessa história, pois era o nome mais conhecido envolvido na produção.

Bom, eles não fizeram quase nada, para ser sincero. Quase tudo em âmbito de estúdio é mérito do desconhecido Lapin Track, que, inclusive, é o estúdio do Ikuhara.

Bungou Stray Dogs 3

Essa terceira temporada de Bungou trouxe de volta tudo que havia de bom nas outras duas. O estúdio Bones, por si só, já praticamente garante uma boa qualidade, mas a direção do Igarashi Takuya dispõe de um charme próprio que eleva ainda mais o anime.

Seus planos abertos e médios são sempre deslumbrantes, com a utilização de recursos de cenário como vitrais para representar relações entre os personagens, além de ter uma noção de iluminação realmente digna de nota.

©Bones/Kafka Asagiri

Além disso, quando era necessário movimentação em cenas de ação, tivemos boas coreografias e boas composições. Em geral é uma legítima boa produção, com consistência e vários momentos inspirados. Não é um show-off de animação fluida como Mob, mas atende diligentemente à proposta do projeto.

Kaguya-sama wa Kokusaretai: Tensai-tachi no Renai Zunousen

E, para finalizar com chave de ouro, vou falar de uma produção extremamente carismática que cativou muita gente. Inicialmente, é interessante salientar que não é novidade para ninguém que a maioria das comédias românticas acaba recebendo adaptações pouco inspiradas.

Um exemplo disso é 5-Toubun no Hanayome, que estreou na mesma temporada. O anime foi, basicamente, um slide show com os quadros do mangá. No entanto, esse passou longe de ser o caso aqui, e isso se deve praticamente a uma pessoa — o diretor Mamoru Hatakeyama; ou Omata Shinichi, como acharem melhor.

©A-1 Pictures/Aka Akasaka

Ele é um “ex-Shaft”, simplesmente, excepcional ao lidar com dramas e comédias, retirando delas o maior brilho possível. Podemos ver isso claramente nesse anime, no qual qualquer situação possível gera representações visuais criativas e interessantes.

Há bastante manipulação de luz e sombra, além de layouts muito bem elaborados. Também tivemos vários momentos de character acting elaborados, acarretando mais energia às cenas.

Houve, até mesmo, um episódio cujo storyboard foi elaborado por Oikawa Kei, diretor de Oregairu Zoku e Hinamatsuri. Assim como Hatakeyama, ele também dá bastante valor ao character acting como maneira de obter maior expressividade em cenas de drama e comédia.

Isso para não falar da ending da Chika, um dos melhores usos de rotoscopia que já vi em animes. Isso tudo prova que só porque um anime não é de ação não significa que ele não mereça ser bem produzido. Muito pelo contrário, quando isso acontece, os resultados são como um colírio para os olhos.

Considerações

E são esses os animes que, na minha visão, mais se destacaram visualmente das temporadas de inverno e primavera. Tentarei trazer posts assim com mais frequência, e quero tornar esse “top 5” algo semestral.

Lembrando que suas opiniões sempre serão bem vindas na aba de comentários.

Leia mais artigos sobre a indústria.
Todos os animes citados estão disponíveis no catálogo do serviço de streaming Crunchyroll.

Posts relacionados