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Carole & Tuesday | Episódio 4: o mais bem feito clipe mal feito

©Bones/Shinichiro Watanabe
Carole & Tuesday | Episódio 4 – Video Killed the Radio Star

Nota: Carole & Tuesday está sendo acompanhado semanalmente aqui no blog. Ou seja, a cada um episódio, uma análise.


Voltamos com mais uma análise semanal de Carole & Tuesday, dessa vez cobrindo um episódio que foi bem mais focado no lado cômico que o normal. Ainda assim, tivemos alguns pontos bastante interessantes que podem ser comentados. Tentarei, pois, explorá-los durante o post.

Maturidade ao Tratar seus Temas

Ao invés de comentar o episódio de maneira mais linear, como fiz nos posts anteriores, optarei por iniciar falando do fator exposto nele que mais vem gerando admiração por parte de grande parcela do público — merecidamente, diga-se de passagem. Caso você tenha assistido ao episódio, creio que sabe do que estou falando, certo? Pois bem, estou me referindo à maestria com que a obra soube tratar a bissexualidade.

Fomos apresentados à ex-mulher do Gus, que é convidada por este a auxiliar nas questões estilísticas de um clipe musical que estavam preparando. Não muitos momentos depois, descobrimos que ela está, atualmente, em uma relação amorosa com outra mulher — inclusive iriam até mesmo se casar.

Diferentemente da maioria das outras obras que abordam essa temática, isso foi retratado da maneira mais natural e cotidiana do mundo, com diálogos palpáveis por parte de todos os personagens. Através de um beijo corriqueiro, provindo de uma relação decerto estabelecida do casal lésbico, além da naturalidade com que ela pergunta à dupla principal se elas têm “um namorado ou uma namorada”, conseguiram com sucesso estabelecer um ambiente confortável e maduro para a obra.

©Bones/Shinichiro Watanabe

 O Gus, inclusive, se mostra como um homem admirável, pois, quando a moça explica a situação, ele apenas desejou a ela felicidades e que tudo desse certo. Será que no nosso mundo conseguiremos, algum dia, reproduzir isso? O futuro está aí, tentemos torná-lo tão acolhedor quanto o ambiente marciano fictício de Carole & Tuesday.

©Bones/Shinichiro Watanabe

Considerações feitas sobre esse ponto, vamos falar do episódio mais engraçado do anime até o momento.

Enredo – Referências e Possíveis Foreshadows

Tendo em vista que a ideia de pedir ajuda ao Ethergun deu errado, a ideia de fazer divulgação por meio de um videoclipe foi bem tangível. O auxílio de um “robô diretor” que compraram na internet (com a incrível avaliação de uma estrela no ebay) também foi algo interessante para notarmos o nível em que a tecnologia já está neste mundo; todavia, como vimos lá na frente, ele passa longe de substituir com perfeição a mão de um profissional humano.

©Bones/Shinichiro Watanabe | “Lição de vida: não comprem coisas com avaliação de uma estrela na internet”

Quando os quatro começaram a dar sugestões para o vídeo, houve um bombardeio de referências a clipes musicais antigos. Eu, particularmente, só peguei de cara as descrições de “Thriller” e “Beat it” de Michael Jackson. Admito que não sou lá um grande conhecedor musical, haha. Entretanto, caso você tenha interesse, o Gabe do site Aenianos fez um apanhado com todas elas.

©Bones/Shinichiro Watanabe

Em um momento, o robô que eles compraram estava assistindo a Spacy Dandy, outro anime do Shinichiro Watanabe. Aproveitando a deixa, vejam essa obra, é muito boa.

©Bones/Shinichiro Watanabe

Após isso, houve, como citado anteriormente, o reencontro do Gus com sua ex-mulher. Nesse ponto, um diálogo específico chamou minha atenção, que foi aquele em que ele cita que detesta “os desgraçados da indústria musical”. Fiquei bastante curioso para saber com mais detalhes o que ocorreu e com ele e sua antiga banda Lazy Sandwich, e espero que entreguem um flashback mais para frente.

Em seguida, tivemos várias sequências cômicas durante as gravações, contando com ótimas gags. Aquelas partes das intrigas entre o robô diretor e o despertador coruja, aliás, me lembraram aquele trope de desenhos/filmes em que o mascote antigo perde atenção dos donos por causa do novo, mas no final o novo é do mal e o antigo estava certo o tempo todo.

©Bones/Shinichiro Watanabe
O Videoclipe

No entanto, convenhamos que nada foi tão eminente nesse sentido do que o vídeo finalizado. Eu nunca imaginei que veria um esforço tão grande por parte da direção do anime para mostrar um clipe da forma mais trash possível — deliberadamente, tendo em vista o plot do robô vigarista. A equipe de fotografia, por exemplo, tratou de fazer o foco/desfoco nos personagens e nos cenários de maneira totalmente inversa do que deveria, além de manterem a câmera instável. Dessa forma, tudo parecia amador até demais. Não apenas isso, mas a edição fazia cortes no momento errado, deixando tudo mais parecido com um making of.

©Bones/Shinichiro Watanabe

A parte mais impressionante, porém, foi como a animação representou, com perfeição, os efeitos especiais mal feitos do robô. A parte do espelho, por exemplo, contou com um giro de câmera e animação fluida nos rabiscos. Os monstros multiplicados e as garotas também estavam sendo movimentados de maneira bem ridícula, mas vívida, tornando tudo muito cru. No final do post, como sempre, falarei da ótima equipe responsável por essas proezas.

©Bones/Shinichiro Watanabe
Escolha da Música

Contudo, mesmo com tanta coisa boa, esse episódio marcou minha primeira ressalva contra o anime. Eu já havia aceitado que seria uma obra na qual a composição das músicas seria mostrada de maneira meio utópica, visto que duas garotas leigas compuseram sozinhas, de um episódio para outro, uma bela canção — a belíssima “Loneliest Girl”.

A questão é que dessa vez, ao invés de colocaram no clipe a música “Round & Laundry”, criada pelas duas no episódio passado, optaram por utilizar “Hold Me Now”, o tema de encerramento do anime. O problema aqui é que não vimos elas nem ao menos dialogar sobre, dando a entender que as músicas podem ser compostas muito facilmente. Isso até funciona bem em outras obras, mas Carole & Tuesday tem uma ambientação tão fidedigna que isso acaba me incomodando um pouco.

©Bones/Shinichiro Watanabe

Garanto, porém, que essa é a única vez que vou dedicar uma parte da análise para criticar isso. Caso aconteça novamente, não vou me dar o trabalho de falar. Já está registrado aqui que é algo que não me agrada e pronto. Acho melhor evitar deixar os textos muito repetitivos.

Episódio – Parte Técnica

Agora vamos à staff responsável por liderar a produção desse episódio. Eu diria que, ao menos em questão de boa animação nos momentos cotidianos, esse foi o que mais se destacou até agora. Contamos com vários momentos chamativos de character acting mesmo nas partes calmas fora do clipe/performance, que costuma ser o foco principal. A consequência disso é que todos os personagens ficam mais expressivos, dando um ar bem energético a tudo.

©Bones/Shinichiro Watanabe

A equipe alocada explica bastante o motivo pelo qual esse episódio ficou assim. Isso porque o storyboard ficou a cargo de ninguém menos que Okamura Tensai, um profissional bastante experiente que dirigiu obras como Wolf’s Rain, Darker than Black e as respectivas primeiras temporadas de Ao no Exorcist e Nanatsu no Taizai.

Ele, portanto, possui muitos contatos e é bastante competente em qualquer obra que pega para fazer. Certamente, foi fundamental para a existência de um episódio com tantas construções de cena e ideias criativas.

 

O Diretor de Episódio foi o Tsuyoshi Tobita, que ultimamente vem sendo uma figura que costuma participar de boas produções. Ele dirigiu, entre outras coisas, o episódio 7 da segunda temporada de Mob Psycho 100. Também exerceu a função no episódio 5 e na opening de Kaguya-sama. Para finalizar, a supervisão da animação foi feita por Naoyuki Konno, cujo trabalho já tive a chance de elogiar anteriormente.

©Bones/Shinichiro Watanabe

Deixarei aqui, um link para vocês verem mais trabalhos do pessoal que participou do anime até agora. Clicando aqui você será direcionado para a página do anime na enciclopédia do Anime News Network.

Próximo episódio

O quinto episódio terá, como nome, “Every Breath You Take”, que faz referência ao single homônimo da banda The Police.

Muito obrigado por ler até aqui, e sinta-se à vontade para deixar sua opinião nos comentários. Estaremos de volta próxima semana.

Nota: A – Brownie com calda de caramelo


©A-1 Pictures/Miyuki Nakayama | “O gerente recomenda!”

Carole & Tuesday está em simulcast pelo serviço de streaming Netflix no Japão.

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