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Carole & Tuesday | Episódio 2: Uma Crítica ao Futuro da Arte

©Bones/Shinichiro Watanabe
Carole & Tuesday | Episódio 2 – Born to Run

Nota: Carole & Tuesday está sendo acompanhado semanalmente aqui no blog. Ou seja, a cada um episódio, uma análise.


Começaremos, enfim, a cobertura semanal de Carole & Tuesday, decerto um dos animes mais promissores dessa temporada de primavera. Devido ao fato de que esta é uma obra que tem muitos pontos a serem explanados, os posts poderão ficar um pouco extensos para a diretriz principal do site, então peço perdão desde já por isso. No entanto, garanto que tentarei o possível para torná-los interativos e interessantes. Conto, pois, com a companhia de vocês para as próximas 23 semanas!

Opening

Nada melhor para iniciarmos do que com a abertura, não é mesmo? Pois bem, depois de muita espera, finalmente fomos agraciados com a sua parte visual. Anteriormente, já tínhamos acesso à bela música “Kiss me”, de Celeina Ann e Nai Br.XX, disponível no canal oficial do anime no youtube, mas a sua animação em si só foi liberada nesse segundo episódio. Digo, sem medo, que a espera valeu cada segundo, pois o que foi entregue é digno de aplausos.

©Bones/Shinichiro Watanabe

Antes de mais nada, vou comentar acerca da equipe responsável pela produção dessa opening. Começando com o talentoso austríaco Bahi JD, que é o principal nome criativo por trás de tudo, tendo feito seu storyboard e sendo o responsável pela sua direção. Ele é um dos animadores estrangeiros que vem ganhando mais eminência nos últimos tempos. Quer mais trabalhos dele? pode começar com a abertura feita por ele para o anime Atom: The Beginning, que, inclusive, possui algumas semelhanças artísticas com a que estamos destacando aqui.

©Bones/Shinichiro Watanabe

Não bastasse isso, a arte conceitual foi feita por ninguém menos que Tadahiro Uesugi. Ele trabalhou no departamento de arte do filme Coraline e o Mundo Secreto, tendo ganhado até mesmo um Annie — Equivalente ao Oscar para animações. Ao juntarmos ele com o mencionado Bahi JD, tivemos, como resultado, belíssimos, complexos — e, principalmente, criativos — layouts, que demonstram perfeitamente o que eles dois gostam de passar artisticamente na tela.

©Bones/Shinichiro Watanabe

Já entre os animadores propriamente ditos, podemos destacar dois: Hakuyu Go e Chengxi Huang (todos são ótimos, mas esses são os que mais saltam aos olhos). O primeiro foi responsável por aquele grandioso episódio 22 de Fate/Apocrypha e pelo episódio 5 da segunda temporada de Mob Psycho 100, ambos show-offs de animação fluida. Ele é, aliás, um dos animadores digitais focados em 2DFX mais importantes da atualidade. Já o segundo foi nada mais nada menos que o responsável pelo famoso episódio 65 de Boruto. Então, convenhamos que não chega a ser surpreendente a imensa fluidez que presenciamos aqui.

©Bones/Shinichiro Watanabe

Dificilmente presenciamos algo que esbanja tanta energia, criatividade e qualidade assim. Podemos concluir, portanto, que essa opening é, esteticamente, uma das melhores coisas que apareceram pela indústria de animes nos últimos anos. Juntando isso à bela música — totalmente em inglês — ela virou uma das minhas aberturas favoritas de todos os tempos.

Episódio – Enredo

Em contraste com os acordes mais contemplativos do single “True Colors” de Cyndi Lauper, que incentivaram Tuesday a ir atrás de seu verdadeiro sonho, além de representar a mensagem do anime de que “Verdadeiras cores são tão belas quanto um arco-íris”, o episódio dessa semana foi nomeado com base na animada música “Born to Run”, de Bruce Springfield. Ela representou o início da “corrida” das protagonistas para alcançarem o que querem. Lembrando que todos os episódios serão nomeados com nomes de músicas americanas do século XX — algo interessantíssimo em uma obra que é praticamente um tributo à música.

©Bones/Shinichiro Watanabe

O episódio teve início mostrando o contraste entre a convivência das as personagens principais e a vida corrida de “marionete” da Angela, que provavelmente virá a se encontrar com as protagonistas no futuro. Enquanto a dupla é mostrada em interações espontâneas e orgânicas, vemos a vida corrida e sufocante da garota, com a direção fazendo questão de mostrar cada flash de câmeras como algo desconfortável — com uma sonoplastia quase semelhante a um tiro. Como explorarei melhor mais à frente, esse contraste é uma das temáticas que o criador Shinichiro Watanabe está mais se esforçando em desenvolver, ao menos na minha visão.

©Bones/Shinichiro Watanabe

Nesse meio tempo, vimos a Carole em seu novo trabalho de meio-período, dessa vez em uma funerária. Essas cenas, além de funcionarem perfeitamente como algo cômico, serviram como uma construção e solidificação da personalidade da personagem. Enquanto seu chefe demonstrava cinismo e hipocrisia extremos ao tratar com o morto, ela esbanjou espontaneidade e sinceridade — valores esses que acabariam por levá-la à sua demissão. Também podemos destacar o flashback da Carole carateca dando uma voadora no menino que estava sendo ruim com ela. Merecido!

©Bones/Shinichiro Watanabe

Enquanto isso, Tuesday tentava ajudar em casa, mas digamos que sua vida de senhorita não preparou ela muito bem para isso. Depois disso, elas duas decidiram iniciar uma conversa para entenderem melhor os gostos uma da outra, que são bem destoantes entre si, para dizer o mínimo. Achei maravilhosa essa variedade entre as duas, e é impressionante como elas funcionam em perfeita harmonia mesmo assim. Que dupla! Uma curiosidade aqui é que, quando Carole cita sua música e cantora favorita, e ela fala sobre uma tal de Crystal, que eu não conhecia. Pesquisei melhor e creio que ela estava falando de Cystal Gayle, uma artista americana da década de 70.

©Bones/Shinichiro Watanabe

Enquanto isso, Angela passa por um processo deveras desconfortável para analisar minuciosamente suas aptidões musicais. O Tao, um dos personagens mais interessantes da história, trata-a como se fosse uma cobaia. De maneira metódica, e até mesmo mecânica, é feita a música na sua composição. Foi esse pragmatismo extremo que levou a garota a questioná-lo sarcasticamente se ele era mesmo humano e não uma IA. O mais assustador aqui é que Tao leva isso quase como se fosse um elogio. Também é dito por ele que 99% dos hits musicais são provindos de inteligências artificiais. Aqui são levantadas algumas questões: o quão fundo poderá o ser humano ficar obcecado com a tecnologia? E até que ponto a arte será arte se sua base fundamental for isso? Até o efeito de sons na mente humana é calculado ao fazer uma música nesse universo de Carole & Tuesday. Espero veementemente que consigam explorar bem essas questões ao decorrer da obra — até porque isso não é algo digno de discussão apenas diegeticamente em um mundo fictício…

©Bones/Shinichiro Watanabe

Também tivemos a introdução de outro musicista, chamado Etergun. O mais interessante aqui é que ele exemplifica um tipo de música diferente das que foram mostradas até agora. No caso, ele é um Dj e performa sons puramente eletrônicos. Consigo imaginar ótimas coisas que o anime talvez opte a fazer quando for explorá-lo melhor. Só nesse episódio já tivemos uma transição interessante entre um show dele cheio de gente que corta para uma instalação vazia semelhante às construções nas quais ocorrem concertos musicais tradicionais. E é nela que Carole e Tuesday vão (de maneira meio indelicada, mas ok).

©Bones/Shinichiro Watanabe
©Bones/Shinichiro Watanabe

É aqui que se passa a parte mais chamativa do episódio — a performance musical das duas. Finalmente temos uma versão com a letra mais completa da melodia que estavam desenvolvendo episódio passado. E que música, meus amigos! Loneliest Girl é uma das insert songs mais envolventes que já ouvi em animes. Por conta do contexto mostrado anteriormente, há uma aura ainda mais especial em volta dela. Como assim? Acho linda a pureza com que as garotas tocam os instrumentos. Em meio a uma sociedade toda digital e artificial, o bom e velho “analógico” acaba emanando uma beleza diferente e natural. Na minha visão, diante de tudo que foi exposto ao decorrer desse episódio, esse contraste é o principal ponto de debate que o Shinichiro Watanabe está tentando desenvolver em Carole & Tuesday.

©Bones/Shinichiro Watanabe
©Bones/Shinichiro Watanabe

Ao final do episódio, a performance delas viralizou na internet — estão vendo? Nem tudo relacionado às ferramentas tecnológicas é demonizado aqui. Se você quer maniqueísmo e conflitos rasos vá assistir Tate no Yuusha — e elas são descobertas por um manager que aparentemente havia perdido a esperança na música há algum tempo. Podem aguardar que vem mais coisa boa por aí.

Episódio – Parte Técnica

Agora farei algumas pequenas considerações acerca da produção visual do episódio, tendo em vista que é um tema que me interessa bastante. Além da visão geral que fiz nas primeiras impressões do anime aqui no site — que continuam válidas — farei um olhar sobre esse episódio em específico.

Notaram que as partes cômicas estavam um pouco mais eminentes e chamativas em comparação ao episódio passado? Não é para menos, já que o storyboard desse episódio foi feito por Manabu Okamoto, diretor de Gamers, um anime de comédia que se destacou bastante pelo seu timing cômico em 2017. O diretor de episódio Shouhei Miyake (ep 4 de Mob Psycho 100 Season II) passou bem suas ideias para a tela.

©Bones/Shinichiro Watanabe

O que mais me chamou a atenção, no entanto, foram as correções de Naoyuki Konno que chefiou a direção de animação nesse episódio. Na minha visão ela soube passar a beleza e delicadeza do character design das garotas melhor até mesmo que o Yoshiyuki Ito, que exerceu essa função (muito bem, diga-se de passagem) no episódio 1. Notem o quão belo está o traço da Tuesday no frame abaixo.

©Bones/Shinichiro Watanabe

Próximo Episódio

Semana que vem teremos, como nome do episódio, “Fire and Rain”, que faz referência ao single homônimo do cantor James Taylor. Como será que ele se relacionará com a história? saberemos em breve!

Muito obrigado por ler até aqui, e sinta-se à vontade para deixar sua opinião nos comentários. Estaremos de volta próxima semana.

Nota: A – Brownie com calda de caramelo


©A-1 Pictures/Miyuki Nakayama | “O gerente recomenda!”

Carole & Tuesday está em simulcast pelo serviço de streaming Netflix no Japão.

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