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Outsourcing: entenda mais sobre a “terceirização” de animes

©Tezuka Productions/Negi Haruba

Dando continuidade à série de artigos que estamos fazendo em busca de esclarecer melhor o funcionamento da produção de animes, trago para vocês um post voltado à explanação de como funciona o outsourcing, um dos fatores mais cruciais — e lamentáveis — da indústria de animação japonesa.

Esperamos que alguns de seus possíveis conceitos pré-concebidos sejam quebrados, e que essa questão seja vista com mais clareza.

Chega dessa ideia!

Antes de mais nada, é necessário eliminar de vez o pensamento de que os animes são produzidos por um só estúdio. Cria-se muito essa ideia de produção monolítica por normalmente apenas um deles ser creditado como responsável por produzir a animação (アニメーション制作 – Animation Seisaku).

No entanto, pode-se dizer que isso se refere somente ao estúdio principal/líder do projeto. Devido ao fato de que os prazos de entrega do produto final não costumam ser nada amigáveis, é impossível para a maioria dos estúdios entregar um produto feito totalmente em casa.

Para driblar essa situação, a solução é apenas uma: dar melhores condições e cronogramas de produção decentes aos estúdios? Infelizmente não, pelo menos para as grandes produtoras.

A solução é abusar, e muito, do chamado outsourcing. Caso não esteja familiarizado com o termo, ele seria o equivalente a “terceirização”. Ou seja, entregar partes do trabalho para outras companhias.

Na realidade, o outsourcing por si só não é algo inerentemente nocivo. Afinal, nem todos os estúdios possuem setores próprios de etapas como cenário, fotografia, computação gráfica e efeitos digitais.

Os dois lados do outsourcing

Assim, eles quase sempre subcontratam estúdios especializados para cuidarem dessas etapas. Além disso, não chega a ser uma aberração subcontratar pessoas no nome de outro estúdio para ajudar a animar algumas cenas de um episódio.

A isso é dado o nome de outsourcing parcial. Nesses casos, o estúdio é creditado junto com o resto das pessoas em uma determinada função. Isso fica bem claro ao ver uma ending de anime e nela aparecer nomes de várias companhias diferentes.

©Bones/Kohei Horikoshi | “Vários estúdios diferentes que fizeram in-betweens para o episódio 5 da quarta temporada de Boku no Hero”

O problema é que isso costuma não ser o suficiente para poder entregar tudo no prazo que as produtoras querem. Quando chega a isso, é necessário que alguns episódios sejam completamente produzidos em outro(s) estúdio(s).

Esse é o chamado outsourcing total. Quando isso acontece, o estúdio em que o episódio foi feito é creditado como 制作協力(Seisaku Kyouryoku – assistência na produção).

Abaixo está um exemplo disso em Black Clover, um anime do estúdio Pierrot; casa que é conhecida por fazer quase todos os episódios de seus animes grandes por meio de outsourcing.

©Pierrot/Yuki Tabata | “Estúdio Mouse (マウス) no episódio 108”
O verdadeiro problema

Isso fica ainda mais complicado pelo fato de que mesmo os episódios feitos com outsourcing total são lotados de outsourcing parcial.

Já deu para notar o maior problema gerado por isso tudo? Isso mesmo, a enorme desorganização. Com tanta gente e localidades envolvidas, se torna um “inferno” coordenar a produção.

Os desafortunados profissionais responsáveis por lidar com essas questões de logística são os assistentes de produção (制作進行), que serão explorados melhor em um artigo futuro.

Muita gente, ao olhar por cima, acha que o outsourcing é utilizado para economizar dinheiro ao subcontratar estúdios “vagabundos” para fazer os episódios. Na verdade, é o contrário.

Esses problemas logísticos de que falei acima não são baratos, além de que, logicamente, todas as companhias que participam devem ser pagas.

Há relatos de que sai mais barato fazer um projeto todo in-house do que o contrário. Todos os estúdios gostariam de poder fazer tudo internamente, mas infelizmente o estado maluco dessa indústria não deixa isso acontecer.

Dessa forma, o outsourcing acaba se constituindo como algo excepcionalmente necessário para que o produto seja entregue. As consequências negativas disso vocês já sabem.

O único estúdio no qual tudo é feito internamente é justamente o Kyoto Animation — de longe o estúdio de animes para tv mais bem organizado e saudável do Japão.

Até hoje, ninguém conseguiu fazer um estúdio tão fora dos estigmas dessa indústria quanto ele. Todos os passos, desde a animação até a fotografia, são feitos única e exclusivamente in-house.

Juntando isso às ótimas condições de trabalho, ao sistema eficiente de treinamento de novos animadores, e aos maravilhosos cronogramas de produção, temos um “oásis no meio ao deserto”.

Infelizmente, devido à terrível tragédia que assolou o estúdio em 2019, ainda não sabemos como será no futuro. Torço todos os dias para que eles consigam passar por esse período tenebroso e continuar seu esplêndido trabalho.

Prosseguindo

Agora, voltando para o planeta terra, já sabemos os impactos da terceirização na organização dos projetos. Mas e visualmente? Bom, depende. Geralmente episódios com outsourcing total ficam apenas um pouco abaixo da média dos outros episódios; para quem tem olhos mais afiados.

Isso se deve ao trabalho assíduo dos sakkans (termo explicado no post do link) ao corrigir as cenas. Entretanto, caso a produção esteja muito rushada, pode acontecer de ocorrer algumas aberrações visuais.

E ainda existem casos raros em que episódios feitos fora ficam melhores. Um exemplo recente é o anime Gotoubun no Hanayome, cujo episódio 11 foi inteiramente entregue ao conhecido estúdio Shaft.

Acabou sendo o melhor episódio do anime visualmente. Se bem que os episódios restantes serem horríveis em termos técnicos acabou ajudando um pouco nisso…

©Tezuka Productions/Negi Haruba | “Cena do episódio 11”
Em linhas gerais

Apesar disso, o que importa aqui não é adivinhar se o episódio vai ficar mais bonito ou não, mas sim os indícios do caos que a indústria de animes vive atualmente.

Enfim, espero que vocês tenham obtido nesse texto novos conhecimentos — que podem resultar no final em uma visão pessimista, sinto muito. Por isso, caso tenham gostado, recomendo ler os outros textos que estão por vir sobre o funcionamento da indústria. Obrigado e fiquem ligados.

Leia toda a nossa série sobre funções ligadas à animação.
Leia mais curiosidades sobre a indústria.

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